domingo, 23 de novembro de 2008

O dia que desperta os pássaros, que ilumina os campos, que faz nascer o sol... Este mesmo dia que alimenta as cores e com seus sabores sacia os paladares famintos, é um dia melancólico. Tão frio quanto o corpo de um defunto e tão indigesto quanto um fruto apodrecido. Não surja, ingrato dia, não te dei permissão para roubares a minha noite cuja escuridão fazia-me apenas sentir o silêncio do toque e o gosto da língua. Sem verdades ou mentiras, de olhos vendados, eu desenhava as linhas e coloria as formas invisíveis de um amor. No entanto, agora me atormenta e me obriga a enxergar aquilo que não desejo ver. Justamente aquilo que me faz ter medo, aquilo que me castiga, aquilo que me distorce, aquilo que está à minha frente. Mas que frente é essa? Uma tal realidade que provoca o choro salgado no olhar cego dos amantes. Eu odeio essa frente como odeio todos os lados, quadrados, retos, contidos. Eu prefiro o infinito, o inatingível, o distante e o presente, o torto e o extremo. Por isso, injusto dia, vá e me deixe só, com minha invalidez, com minha insensatez. Deixe-me sonhar com anjos e falar com as estrelas. Deixe-me viver uma ilusão e acreditar nesta canção que ainda soa como eco aos meus ouvidos. Não me procure pois não quero ser encontrada. Sofrendo, faço da lua minha fiel aliada.
(2006)

2 comentários:

Unknown disse...

Que lindo Mary! Profundo!

Unknown disse...

R Ô M A N T I C O , B E L O ,
C L A R O C O M O A N O I T E!